Entre os dias 17 e 19 de agosto, o Instituto Mamirauá realizou, em sua sede, em Tefé (AM), o III Seminário de Gestão Comunitária da Água na Amazônia. O evento reuniu representantes de instituições de pesquisa, organizações da sociedade civil, órgãos governamentais e lideranças comunitárias para debater estratégias que ampliem o acesso à água segura e ao saneamento em comunidades rurais amazônicas.
A iniciativa busca responder a um dos principais desafios enfrentados por comunidades rurais da Amazônia: o acesso contínuo à água de qualidade, especialmente durante períodos de seca extrema e eventos climáticos que alteram a disponibilidade e a qualidade dos recursos hídricos.
O seminário também é uma importante ação que contribui para a promoção da saúde, da segurança hídrica e da sustentabilidade das comunidades amazônicas.
A programação promoveu o intercâmbio de experiências entre diferentes territórios e reuniu discussões teóricas e atividades práticas sobre tratamento e qualidade da água, saneamento e gestão comunitária. Para Maria Cecília Gomes, coordenadora do Programa de Qualidade de Vida do Instituto Mamirauá, a troca de experiências contribui para encontrar soluções adequadas às diferentes realidades amazônicas.
“Nesse evento conseguimos agregar pessoas de diferentes territórios para compartilhar experiências e saber mais sobre esses diversos temas da água, incluindo aqui a região do Médio Solimões, o Pará e outras regiões do Amazonas. Da teoria às aulas práticas, tudo é importante para a melhoria da qualidade da água na Amazônia”, explicou.
A experiência de atuação em diferentes territórios também permitiu destacar avanços observados na própria RDS Mamirauá. Thaissa Oliveira, integrante do grupo de pesquisa Políticas Públicas e Direitos Humanos em Saúde e Saneamento da Fiocruz Minas e da comissão organizadora do seminário, realiza vivências etnográficas em reservas extrativistas e de uso sustentável na Amazônia, e durante sua atuação notou um diferencial na região.
“Uma das minhas constatações é que aqui na RDS Mamirauá as famílias parecem muito mais informadas sobre a importância dos processos de desinfecção e de armazenamento seguro da água. Uma prova de que as ações consistentes de educação sanitária e ambiental têm efeito e são essenciais para a promoção da saúde em áreas ribeirinhas”, destacou.
A discussão também abordou o saneamento a partir da perspectiva dos direitos humanos. O pesquisador Léo Heller, servidor da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), destacou que essa abordagem permite analisar se os direitos relacionados ao acesso à água e ao saneamento estão sendo garantidos, além de evidenciar desigualdades que afetam principalmente populações historicamente marginalizadas.
“A ideia foi transmitir, para os alunos e professores, o que significam esses direitos humanos, como eles surgiram, qual a sua importância e como analisar determinadas situações para verificar se os direitos estão sendo cumpridos ou violados”, explicou Heller, que lidera, na Fiocruz, o grupo de pesquisa Políticas Públicas e Direitos Humanos em Saúde e Saneamento (PPDH).
Para o pesquisador, os direitos humanos funcionam como uma importante perspectiva para compreender a realidade do saneamento e reforçam a necessidade de priorizar populações indígenas, rurais e moradores de áreas periféricas, que tradicionalmente enfrentam maiores dificuldades de acesso aos serviços de água e esgotamento sanitário.
O morador da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá e diretor-presidente da Associação de Moradores e Usuários da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá (AMURMAM), Carlos de Carvalho Gonçalves, destacou que o encontro representa uma oportunidade de aprendizado, troca de experiências e construção de soluções para as comunidades.
“É um momento de grande construção e aprendizado. A gente entende a grande importância que é a água na Amazônia e ficamos felizes em ver várias instituições e lideranças de comunidades empenhadas no mesmo propósito: buscar soluções que possam levar água potável para os nossos territórios”, afirmou.
Ao final do evento, também ocorreu a construção de uma carta com itens importantes para manter o funcionamento e melhorias da gestão comunitária de sistemas de água em diferentes regiões da Amazônia, com base nos assuntos discutidos e levantados pelos participantes durante o evento.
A iniciativa também contou com parceria da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e do UNICEF Brasil, com apoio do Centre for Affordable Water and Sanitation Technology (CAWST). O seminário busca fortalecer o diálogo entre diferentes setores que atuam na gestão da água, compartilhando experiências, tecnologias e modelos de gestão comunitária já desenvolvidos na região.
Treinamentos práticos integraram a programação
As atividades reuniram treinamentos teórico-práticos sobre tratamento emergencial de água barrenta, tratamento de esgoto em áreas alagáveis e cloração da água em sistemas comunitários, apresentando tecnologias e metodologias adaptadas às realidades das comunidades amazônicas, com foco em saneamento, segurança hídrica e promoção da saúde.
Entre os temas abordados estiveram técnicas para o tratamento emergencial de água barrenta, utilizando kits desenvolvidos para tornar potável a água com alta turbidez; soluções para o tratamento de esgoto em áreas alagáveis, adaptadas às condições das comunidades sujeitas ao regime de cheias dos rios amazônicos; e procedimentos de cloração da água em sistemas comunitários, contribuindo para a desinfecção e a melhoria da qualidade da água distribuída à população.
“A expectativa é que cada participante tenha sido sensibilizado pelo conteúdo e importantes informações sobre esses temas abordados. E isso deve fortalecer ainda mais os cuidados para o consumo e bom uso da água em seus territórios e em suas comunidades em todo período do ano, tanto na seca quanto na cheia dos rios”, destacou a coordenadora Maria Cecília Gomes.
As capacitações destacaram a importância da ciência, da tecnologia e da inovação na criação de soluções adequadas às especificidades dos territórios amazônicos e às necessidades das comunidades.





