A decisão do partido Democracia Cristã de lançar o ex-presidente do STF Joaquim Barbosa como novo pré-candidato à Presidência da República aprofundou uma crise institucional dentro da legenda e colocou em rota de colisão antigos aliados da sigla. O anúncio, feito pelo presidente nacional do partido, João Caldas da Silva, também abriu um embate direto com Aldo Rebelo, que vinha sendo tratado oficialmente como o nome do partido para a disputa eleitoral de 2026.
A movimentação interna ocorreu após avaliações da cúpula partidária indicarem que a pré-candidatura de Aldo Rebelo não conseguiu ganhar tração eleitoral nas pesquisas de intenção de voto. Segundo dirigentes do DC, a chegada de Joaquim Barbosa foi vista como uma oportunidade de ampliar a visibilidade nacional da legenda, associando o partido ao discurso de combate à corrupção, ética pública e reformas institucionais — temas ligados à trajetória do ex-ministro no julgamento do Mensalão.
A reação de Aldo Rebelo foi imediata. Em nota pública, o ex-ministro afirmou que não foi comunicado previamente sobre a mudança de rumo da legenda e criticou a condução das negociações internas. “A Democracia Cristã lançou oficialmente minha pré-candidatura à Presidência da República. Não fui comunicado, ouvido ou consultado sobre qualquer mudança desse projeto”, declarou Rebelo.
O ex-presidente da Câmara também afirmou possuir “divergências políticas profundas” com Joaquim Barbosa, sobretudo em relação à atuação do ex-ministro durante o julgamento da Ação Penal 470, o mensalão. Rebelo classificou Barbosa como representante de uma visão “punitivista” e de “ativismo judicial”, incompatível com o projeto político que defendia dentro da legenda.
A crise ganhou novos contornos após declarações de aliados de Rebelo. O presidente do diretório paulista do DC, Cândido Vaccarezza, afirmou que Joaquim Barbosa seria “inapoiável” e acusou o ex-ministro de ter iniciado práticas de “lawfare” no país durante o julgamento do Mensalão. Já em convenção estadual do partido em Roraima, dirigentes ligados a Rebelo chegaram a fazer duras críticas públicas à decisão da executiva nacional.
Em resposta às críticas, João Caldas endureceu o discurso e afirmou que integrantes contrários ao novo projeto político poderão deixar a legenda. “Quem não estiver com Joaquim está fora do partido”, afirmou o dirigente, ao defender que a candidatura do ex-presidente do STF representa uma tentativa de reconstruir a confiança popular nas instituições.
O presidente do DC também justificou a troca afirmando que havia um acordo interno para avaliar a viabilidade eleitoral de Aldo Rebelo ao longo de alguns meses. Segundo Caldas, a entrada de Joaquim Barbosa alterou completamente os planos do partido. “Foi como encontrar uma pérola, um diamante”, declarou.
Apesar da confirmação do novo rumo partidário, Joaquim Barbosa ainda não apresentou oficialmente uma plataforma eleitoral detalhada. Nos bastidores, integrantes da sigla afirmam que o ex-ministro deverá centrar sua eventual campanha em propostas ligadas ao fortalecimento institucional, combate à corrupção e reformas no sistema político e judiciário. Barbosa já havia ensaiado disputar a Presidência em 2018, quando era filiado ao PSB, mas desistiu meses antes da eleição.
A expectativa agora é de que a Democracia Cristã tente consolidar internamente a nova pré-candidatura para evitar novas dissidências e reduzir os danos políticos provocados pela troca abrupta de comando no projeto presidencial da legenda. Enquanto isso, aliados de Aldo Rebelo avaliam os próximos passos e não descartam um rompimento político definitivo.





