Globo pode estar desidratando a CazéTV? Uma análise sobre a disputa pelos direitos esportivos

Sequência de decisões da CBF e da FIFA levanta questionamentos sobre o futuro da LiveMode no mercado de transmissões esportivas
Facebook
WhatsApp
Telegram
Threads
X

A CazéTV revolucionou o mercado brasileiro de transmissões esportivas. Em poucos anos, o canal administrado pela LiveMode mostrou que era possível reunir milhões de espectadores em plataformas digitais, oferecendo gratuitamente competições de enorme relevância, como a Copa do Mundo FIFA de 2022, a Copa do Mundo Feminina, Jogos Olímpicos e outros eventos internacionais.

O sucesso do projeto, entretanto, parece não estar sendo acompanhado pela conquista de novos direitos esportivos.

Pelo contrário. Nos últimos meses, uma sequência de acontecimentos passou a levantar dúvidas sobre o espaço que a LiveMode terá nas próximas grandes licitações do futebol nacional e mundial.

É importante destacar que não há provas públicas de qualquer atuação irregular ou coordenada entre Globo, CBF e FIFA para prejudicar a CazéTV. O que existe são fatos concretos e uma interpretação baseada na sucessão desses acontecimentos, além das manifestações de executivos da própria LiveMode.

A exclusão da Copa do Brasil

O episódio mais marcante ocorreu durante a negociação dos direitos de transmissão da Copa do Brasil.

Mesmo após o enorme sucesso alcançado nas transmissões da Copa do Mundo e de outras competições, a LiveMode acabou ficando completamente de fora da divisão dos direitos organizada pela CBF após a mesma identificar que a LiveMode, responsável por sueu gerenciamento, atuava nos bastidores para gerenciar uma crise entre a Futebol Forte União (FFU) e a entidade na questão relacionada a liga.

Na prática, a CazéTV perdeu a oportunidade de transmitir uma das principais competições do calendário nacional.

Para diversos analistas do mercado, a ausência chamou atenção justamente porque a empresa havia demonstrado enorme capacidade de audiência, inovação tecnológica e aproximação com o público jovem.

Na visão dos executivos da LiveMode, a decisão representou um duro golpe em seu modelo de negócios e uma perda significativa de espaço dentro do mercado esportivo brasileiro.

O temor em relação à Copa do Mundo de 2030

Outro fator que desperta preocupação é o futuro das licitações promovidas pela FIFA.

A Copa do Mundo de 2022 marcou a consolidação definitiva da CazéTV como um dos principais fenômenos da mídia esportiva brasileira. O formato descontraído, a linguagem próxima do público e a distribuição gratuita conquistaram milhões de espectadores.

Entretanto, cresce a percepção de que a concorrência pelos direitos da Copa do Mundo de 2030 poderá ser ainda mais difícil.

Caso a FIFA imponha, de fato, barreiras para que a Livemode e o canal participem da próxima licitação, o mercado poderá interpretar esse movimento como mais um enfraquecimento da empresa justamente após ela demonstrar capacidade de competir com grupos tradicionais de comunicação.

Uma coincidência ou uma reação do mercado?

É justamente a sequência dos acontecimentos que desperta questionamentos.

Primeiro, a CazéTV conquista enorme sucesso na Copa do Mundo.

Depois, fica fora da divisão dos direitos da Copa do Brasil organizada pela CBF.

Agora, surgem dúvidas sobre como será sua participação nas próximas negociações envolvendo a FIFA.

Naturalmente, não é possível afirmar que exista uma articulação entre essas entidades. Contudo, é inevitável que parte do mercado enxergue um padrão nessa sucessão de decisões.

A Globo continua sendo a maior empresa de mídia do país e possui enorme capacidade financeira, tradição e relacionamento histórico com entidades esportivas. Em um ambiente competitivo, é natural que utilize todos os meios legais disponíveis para disputar os principais direitos de transmissão.

Por outro lado, a chegada da CazéTV modificou significativamente esse mercado. Pela primeira vez em muitos anos, um concorrente conseguiu oferecer gratuitamente eventos de grande porte na internet e atingir audiências comparáveis às da televisão aberta em determinados momentos.

Esse novo modelo rompeu paradigmas e mostrou que o consumo esportivo não depende exclusivamente das emissoras tradicionais.

A percepção de “desidratação”

Na minha avaliação, observando os fatos disponíveis até aqui, existe uma sensação de que a LiveMode e a CazéTV vêm sendo gradualmente “desidratadas” no mercado de direitos esportivos.

A exclusão da licitação da Copa do Brasil para 2027 representa um fato concreto.

As preocupações em relação às possíveis exclusões de futuras licitações da FIFA também alimentam essa percepção.

Somados, esses episódios criam a impressão de que o espaço conquistado pela CazéTV na Copa do Mundo de 2022 pode estar encontrando resistência dentro de um mercado historicamente dominado por grandes conglomerados de mídia.

Isso, por si só, não comprova qualquer irregularidade ou retaliação institucional. Contudo, fortalece o debate sobre até que ponto novos concorrentes conseguem disputar em igualdade de condições os principais ativos esportivos do país e do mundo.

A história ainda está sendo escrita.

Os próximos processos de venda dos direitos da Copa do Mundo de 2030 serão fundamentais para mostrar se a ausência da LiveMode em competições importantes foi apenas consequência de decisões comerciais ou se realmente existe uma tendência de redução do espaço da empresa nas grandes transmissões esportivas.

Independentemente da resposta, uma coisa parece inegável: a CazéTV transformou a forma como milhões de brasileiros consomem esporte. E qualquer redução de sua participação nas principais competições certamente terá impacto não apenas para a empresa, mas também para o público, que passou a contar com uma alternativa gratuita e inovadora para acompanhar grandes eventos esportivos.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

» Relacionados