Morre, aos 88 anos, o fundador do restaurante Canto da Peixada, Aldenor Ernesto de Lima

Localizado no bairro Praça 14, zona sul de Manaus, o restaurante serviu o papa João Paulo II durante sua passagem a Manaus, em 1980
Seo Aldenor, como era conhecido, ficou conhecido pela extensa trajetória junto ao povo amazonense (Foto: Reprodução/Instagram Canto da Peixada)
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O empresário Aldenor Ernesto de Lima, fundador do tradicional restaurante Canto da Peixada, morreu nesta segunda-feira (31), aos 88 anos, em Manaus. A causa da morte não foi divulgada. O falecimento foi comunicado pelas redes sociais do restaurante e repercutiu entre representantes da vida pública e da gastronomia amazonense.

Nascido em 27 de agosto de 1938, no município de Careiro da Várzea, no Amazonas, Aldenor teve uma trajetória profissional marcada por diferentes atividades antes de se dedicar à gastronomia. Trabalhou como garimpeiro no Rio Tapajós, em Rondônia e no Mato Grosso, foi estivador no Porto de Manaus e também atuou como prático.

De um pequeno negócio a uma referência de Manaus

A história do Canto da Peixada começou em 1º de maio de 1974, quando Aldenor Ernesto e o amigo Luís Martins abriram o restaurante na esquina das ruas Emílio Moreira e Ayrão, no bairro Praça 14 de Janeiro, Zona Sul de Manaus. O empreendimento começou de maneira simples: um fogão doméstico, um freezer emprestado e cerca de 200 cruzeiros obtidos com o pai de Aldenor. Dois anos depois, Luís Martins deixou a sociedade e Aldenor passou a comandar sozinho o negócio.

Nos primeiros anos, o restaurante tinha forte ligação com a boemia manauara. Funcionava durante a noite e chegava a permanecer aberto até as 6h da manhã, recebendo clientes que procuravam a tradicional caldeirada de tucunaré e bodó após as festas. Com o passar do tempo, o estabelecimento ampliou sua clientela e passou a receber moradores, trabalhadores, turistas, artistas e personalidades que buscavam conhecer os sabores da culinária amazônica.

O cardápio ajudou a transformar o endereço em uma referência gastronômica da capital. Tambaqui, tucunaré, matrinxã, pirarucu, sardinha, surubim, pacu e jaraqui estão entre os peixes regionais associados à história da casa.

O estabelecimento também recebeu reconhecimento institucional. Em 2016, o Canto da Peixada foi declarado Patrimônio Cultural Imaterial do Amazonas, em razão de sua importância para a preservação e difusão da gastronomia regional.

O dia em que o Papa João Paulo II provou o peixe amazônico

O papa João Paulo II em sua visita a Manaus (Foto: Arquivo/Arquidiocese de Manaus)

Um dos capítulos mais conhecidos da história de Aldenor ocorreu durante a visita do então Papa João Paulo II a Manaus, em julho de 1980.

A visita do pontífice à capital amazonense ocorreu nos dias 10 e 11 de julho de 1980. Registros do Vaticano confirmam a presença de João Paulo II em Manaus em 10 de julho daquele ano, quando participou de encontros com o clero e com representantes indígenas.

Foi nesse contexto que o Canto da Peixada entrou para a história. Aldenor ficou responsável por preparar a alimentação oferecida ao pontífice. Segundo registros históricos e relatos preservados sobre o restaurante, João Paulo II provou pratos da culinária regional e voltou a comer peixe no dia seguinte.

Há registros que apontam a caldeirada de tucunaré como parte da refeição oferecida ao Papa e, posteriormente, costela de tambaqui na brasa. As louças e talheres associados à refeição foram preservados pelo restaurante como parte da memória daquele episódio.

O episódio ganhou dimensão simbólica porque associou um dos principais representantes da Igreja Católica no mundo a uma das expressões mais tradicionais da culinária amazônica. Quatro décadas depois, a Arquidiocese de Manaus ainda destacava Aldenor como personagem daquela passagem histórica pela capital.

Um empreendedor ligado à identidade gastronômica de Manaus

Mais do que administrar um restaurante, Aldenor Ernesto construiu uma trajetória diretamente relacionada à valorização dos ingredientes e dos costumes alimentares da região.

A história do Canto da Peixada acompanhou diferentes períodos de Manaus e ajudou a manter em evidência pratos preparados com peixes encontrados nos rios amazônicos. A permanência do estabelecimento no mesmo endereço, na Praça 14, também fez com que o restaurante se tornasse um ponto de referência para diferentes gerações de moradores e visitantes.

Em 2024, quando o restaurante completou 50 anos, a Assembleia Legislativa do Amazonas destacou a contribuição de Aldenor para a geração de empregos e para a difusão da culinária amazonense. A homenagem ressaltou a persistência do empresário na manutenção de um negócio que atravessou cinco décadas.

A Câmara Municipal de Manaus também manifestou pesar pela morte do empresário nesta segunda-feira. Em nota, destacou sua atuação na defesa e valorização da culinária amazonense e afirmou que seu legado está ligado à preservação das iguarias e tradições gastronômicas da região Norte.

Aos 88 anos, Aldenor deixa uma história que ultrapassa as paredes do restaurante. O Canto da Peixada se tornou parte da memória gastronômica de Manaus — e seu fundador, uma das figuras associadas à transformação dos sabores amazônicos em uma referência reconhecida por moradores e visitantes da capital.

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