Globo amplia cobertura na China e enfrenta acusações de abordagem favorável ao regime chinês

Retorno de correspondente ao país asiático reacende debate sobre linha editorial da emissora e tratamento dado ao governo de Xi Jinping
Repórter da TV Globo, Felipe Santana, realiza série de reportagens no Fantástico sobre a China (Foto: Reprodução/TV Globo)
Facebook
WhatsApp
Telegram
Threads
X

A ampliação da cobertura internacional da TV Globo na China reacendeu debates sobre a linha editorial da emissora em relação ao governo chinês. O movimento ocorreu após a empresa anunciar o retorno de um correspondente fixo ao país asiático e estrear uma série especial de reportagens exibidas no Fantástico e no Jornal Nacional, com foco na disputa econômica e tecnológica entre China e Estados Unidos.

A Globo transferiu o jornalista Felipe Santana, que atuava em Nova York, para a China como parte da expansão de sua cobertura internacional. Segundo a emissora, a proposta é apresentar um “olhar brasileiro” sobre uma das maiores potências econômicas do mundo, diferenciando-se da cobertura tradicional da imprensa norte-americana.

A relação da Globo com a China, no entanto, não é recente. A emissora inaugurou sua primeira sucursal em Pequim em 2005, quando enviou a jornalista Sônia Bridi ao país. Posteriormente, o posto também foi ocupado pelo repórter Pedro Bassan. Após um período sem presença fixa no território chinês, a Globo retomou a estrutura neste ano, em meio ao crescimento da influência econômica chinesa no cenário global e na relação comercial com o Brasil.

As novas reportagens exibidas pela emissora destacaram temas como tecnologia, infraestrutura, mobilidade urbana, desenvolvimento econômico e transformação industrial chinesa. Em um dos conteúdos apresentados no Jornal Nacional, Xangai foi descrita como “vitrine da China moderna” e símbolo da ascensão econômica do país.

A abordagem, porém, passou a ser alvo de críticas nas redes sociais e entre comentaristas políticos. Os críticos acusam a Globo de adotar uma narrativa considerada “pró-regime”, priorizando aspectos positivos do desenvolvimento chinês enquanto daria menos espaço a denúncias relacionadas à censura estatal, perseguição a opositores, controle sobre a imprensa, vigilância digital e acusações de violações de direitos humanos envolvendo minorias étnicas, como os uigures.

Outra crítica recorrente envolve o conceito de “olhar brasileiro” utilizado pela emissora para promover a série especial. Para opositores da cobertura, a proposta poderia representar um afastamento da narrativa crítica adotada por parte da imprensa ocidental em relação ao governo de Xi Jinping. Já defensores da iniciativa afirmam que a presença de jornalistas brasileiros na China amplia a capacidade de produção de conteúdo independente e reduz a dependência de análises estrangeiras sobre o país asiático.

As acusações também resgataram debates históricos sobre a influência política da Globo e seu posicionamento editorial ao longo das décadas. A emissora já enfrentou críticas relacionadas à cobertura política nacional, incluindo questionamentos sobre sua atuação durante a ditadura militar brasileira — episódio reconhecido posteriormente pelo próprio Grupo Globo como um “erro”.

Até o momento, a Globo não divulgou nota oficial específica respondendo às acusações de alinhamento ao regime chinês. Entretanto, a emissora sustenta, em suas chamadas e materiais institucionais, que o objetivo da nova cobertura é oferecer uma análise brasileira sobre as transformações econômicas, tecnológicas e geopolíticas envolvendo a China e os Estados Unidos.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

» Relacionados